• Dra.Andrea Pereira

AJUSTE A DIETA PARA ENFRENTAR O CÂNCER

Revista Veja Saúde - texto de Maria Tereza Santos


Quase todo mundo tem em mente que a escolha dos alimentos é capaz de ajudar a prevenir ou a derrotar um câncer. O que poucos imaginam é que, para um número expressivo de pessoas diagnosticadas com a doença, o plano de combate ao tumor gera efeitos colaterais que dificultam a hora de comer. Uma nova revisão de 25 estudos sobre o tema, publicada no periódico da Academia Americana de Nutrição e Dietética, comprovou

que o paladar da maioria dos pacientes foi prejudicado durante e após o tratamento. Aqueles que realizaram radioterapia permaneceram com as alterações até 24 meses após o fim das sessões. A repercussão entre quem passou pela químio foi menos frequente, mas, no grupo afetado, persistiu por mais seis meses depois da terapia. Com o paladar tumultuado, o sujeito perde o apetite e pode até entrar na rota da desnutrição.



A nutricionista Gabriela Vilaça, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), explica que essa reação é mais comum na radioterapia, principalmente quando ela é direcionada para tratar tumores na região da cabeça e do pescoço. Como a aplicação da radiação é local, as células da cavidade bucal são penalizadas, o que influencia, pelo menos por um tempo, a capacidade de sentir os sabores. “Na quimioterapia, o efeito é sistêmico, então as alterações dependem mais da medicação utilizada”, esclarece Gabriela. A revisão americana aponta que pessoas

submetidas a quimioterápicos à base de taxano relataram mais essa adversidade. Mas o paladar não é o único obstáculo encarado no tratamento do câncer — nem a rádio e a químio as únicas terapias a surtir efeitos colaterais nesse aspecto. Náusea, vômito, diarreia, prisão de ventre, boca seca e com feridas, mudanças no olfato e falta de apetite compõem a lista de chabus. “Tudo isso tem impacto direto na qualidade de vida, porque pode comprometer a ingestão alimentar e levar a perda de peso e massa muscular”, observa a nutricionista Josiane de Paula Freitas, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Uma pesquisa do Inca, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de Groningen, na Holanda, demonstrou, após avaliar dados de 4 783

pacientes, as consequências desse cenário: 45% deles estavam com suspeita ou um quadro de desnutrição moderada e 12%, gravemente desnutridos. “Essa situação, associada ao aumento da demanda metabólica causada pela própria doença, diminui a resposta ao tratamento e aumenta o risco de complicações e desfechos negativos”, alerta Josiane.

A boa notícia é que existem truques na manga para contornar esses empecilhos e não perder a vontade e o prazer à mesa. O Inca inclusive criou o Guia de Nutrição para Pacientes e Cuidadores, disponível gratuitamente no site da instituição, com orientações para lidar com as dificuldades. E tem até livro de receitas focado nessa fase, em formato impresso ou e-book. Para superar as alterações de paladar, o principal conselho dos experts é usar e abusar de temperos: eles aguçam o sabor da refeição, e alguns tipos podem ajudar a amenizar enjoos e náuseas. Tem macete antes mesmo de pegar garfo e faca. “Podemos estimular a sensibilidade do paladar com balas de menta, hortelã ou algumas gotas de

limão antes da refeição”, ilustra o oncologista Marcelo Cruz, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A nutricionista do Inca informa que alguns pacientes relatam sentir um gosto metálico ao comer. “Nesses casos, a gente orienta dar preferência aos talheres de plástico em vez dos de metal”, conta Gabriela. Por fim, alimentos ricos em zinco e cobre, como a família das leguminosas, ovos, vegetais folhosos escuros e aveia e outros cereais integrais,

auxiliam na recuperação do paladar. Já o ressecamento da boca e dos lábios característico

de quem está em tratamento é provocado pela redução da produção de saliva. Para

abrandar esse sintoma, o manual do Inca prescreve aumentar a ingestão de líquidos, incluir menos alimentos secos no menu e mastigar tudo mais devagar. “Alguns itens instigam a salivação, como gengibre e hortelã”, destaca a oncologista Maria Del Pilar Esteves Diz, diretora do corpo clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Nessa toada, chupar balas, picolés ou gelo mesmo, mascar chicletes e beber água saborizada

com gotas ou rodelas de limão são táticas valiosas na rotina. “Em alguns casos, também indicamos resinas comestíveis que funcionam como uma saliva artificial”, relata Maria Del Pilar. Por causa do ressecamento, não é incomum que o paciente sofra com aftas e feridas na boca. É importante dar atenção a isso, porque pode ser o início de uma mucosite, condição associada à queda na imunidade e que costuma gerar muita dor — uma autêntica inimiga do momento de comer. Para driblá-la, a médica Anelisa Coutinho, diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), sugere alimentos menos ácidos e

mais pastosos, como sopas, purês e mingaus, e nada de pratos quentes demais. “Para tratar a mucosite e facilitar a cura dessas feridas, podemos recorrer a aplicações de soluções orais e/ou laserterapia”, completa a oncologista.

Reflexos em outros cantos Às vezes o problema é mais embaixo e, devido à doença ou ao tratamento, ocorrem diarreias ou prisão de ventre. A resolução desses estorvos intestinais

não é muito diferente da maneira habitual de tratá-los. Para a constipação, tem que ingerir

bastante líquido e alimentos ricos em fibras, sobretudo as insolúveis — aproveitando ao máximo as cascas e os talos dos vegetais — e respeitar a hora de ir ao banheiro sempre que sentir vontade. A diarreia, por outro lado, exige evitar, temporariamente, comidas que soltam o intestino (verduras cruas, frutas como mamão e ameixa e refeições gordurosas, por exemplo). “Não é preciso excluir leite e derivados se a diarreia durar um curto período”, pontua Gabriela. Mas, se achar que eles estão pesando na digestão, dá para substituir

por versões desnatadas, semidesnatadas ou light. Beber muita água também entra no rol de medidas e dá pra investir em água de coco ou soro caseiro para repor os sais minerais e impedir a desidratação. Se a diarreia for muito intensa ou duradoura, é prudente contatar o médico — probióticos ou medicamentos poderão ser convocados. Você está vendo que ideias não faltam, mas e quando o drama é a falta de apetite? A grande sacada aqui é o fracionamento da dieta. “Em vez de fazer três grandes refeições, dividimos a alimentação

em pequenas porções ingeridas de cinco a seis vezes ao longo do dia”, descreve Cruz. O Inca recomenda tentar comer de duas em duas horas, sem se preocupar em raspar o prato, mas se esforçando para consumir o que mais agradar. Pensando nisso, o conceito de comfort food (“comida afetiva”, em bom português) se ilumina durante o enfrentamento do câncer. Afinal, nada como o prato favorito para abrir o apetite nos dias mais complicados do tratamento — dependendo da receita, só é importante alinhar com a equipe que faz o acompanhamento. “Outra dica é selecionar e incluir nas refeições alimentos que tenham alto valor calórico e nutricional, mesmo em pequenas quantidades”, diz o oncologista do Sírio-Libanês. Dá para fazer isso de várias formas: colocando azeite de oliva, creme de leite ou gema de ovo no purê e no mingau, misturando farinhas e farelos na vitamina, acrescentando macarrão, carne, frango ou ovo à sopa, fazendo suco com mais de uma fruta ou caprichando no recheio de tortas e pães caseiros. Essa gama de estratégias alimentares nem sempre dá conta do recado quando o indivíduo se encontra em um estado de saúde mais frágil. Nesse contexto, suplementos nutricionais despontam como alternativa, mas sempre com a indicação de um profissional. “A suplementação pode ser caseira ou industrial, por via oral, venosa ou sondas”, informa Anelisa. Existem inclusive produtos desenvolvidos para atender as demandas dos pacientes oncológicos, fornecendo proteína e outros nutrientes em quantidade adequada para seguir com o tratamento e preservar a massa e as forças. Regime agora nem pensar Como se não bastassem todos os desafios que podem pintar no momento de comer, as pessoas ainda são bombardeadas com ideias fora de contexto e fake news. Uma delas é a história de que os carboidratos alimentam o tumor, por isso devem ser limados. Há quem se fie nisso e embarque numa dieta low carb. Só que Maria Del Pilar afirma que o argumento não se sustenta. De acordo com a médica do Icesp, apesar de o câncer consumir mais glicose que as células saudáveis, cortar carboidratos e açúcares não vai impedir seu avanço. Não é para se fartar de massas e doces, mas lembrar que, em um cardápio balanceado, esses ingredientes podem entrar e ajudar o corpo a obter energia.




Andrea Pereira, médica nutróloga do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, alerta que, uma vez que o tumor está instalado, a perda de peso e massa muscular é fator decisivo para a sobrevivência. “O paciente não deve fazer dietas restritivas nem podemos deixá-lo desnutrido”, defende. “O ideal é equilibrar o consumo de carboidrato, um nutriente essencial ao organismo, dentro de uma alimentação saudável”, completa. Outro ingrediente frequentemente acusado de estragos em matéria de câncer é a carne vermelha. “Mas a evidência científica diz respeito à prevenção, não à melhora do prognóstico”, diferencia Andrea. Ou seja, evitar o consumo excessivo realmente soma pontos para afastar um

tumor, mas, pensando no paciente em tratamento, o corte irrestrito e sem companhamento nutricional gera desfalques potencialmente sérios. É que a carne é uma das principais fontes de proteína, e a falta dela contribui para a degradação física e muscular. Veja: em uma pessoa sem problemas de saúde, a produção e o desgaste das fibras que compõem os músculos fazem parte de um processo mais difícil de desestabilizar. No entanto, quando há um tumor desatando uma luta dentro do corpo e os médicos precisam lançar mão de algumas armas, a coisa pode desandar. Daí o indivíduo perde tanta massa e força muscular que fica com sarcopenia, um quadro associado a pioras na resposta ao tratamento em si e ao maior risco de complicações e morte. A solução para não entrar nessa é modular as refeições sem vacilar no consumo de proteína e deixar de se exercitar — na medida do possível e sempre sob supervisão! Em um artigo publicado no periódico científico Clinical Nutrition, pesquisadores de diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, sustentam que as

proteínas vegetais são menos eficientes para repor nossas fibras musculares que as de origem animal — elas ofertam uma quantidade menor de leucina, aminoácido crítico para essa finalidade. Compare: em 100 gramas de bife bovino, há 33 gramas de proteínas; em 100 gramas de feijão, são só 8. Fora isso, quando a fonte de leucina é vegetal, o corpo a

absorve menos. A conclusão dos especialistas é: não exclua proteínas animais da dieta de um paciente oncológico. Claro que quem é vegetariano ou vegano não precisa abandonar seu estilo de vida. Só que aí o cardápio deve ser planejado junto a um nutricionista e provavelmente suplementos proteicos terão de integrar o plano. “Durante o tratamento,

podemos promover mudanças de hábito alimentar e reduzir alguns itens, não no sentido da

proibição, mas da adequação”, ressalta Andrea. Outro conselho sempre bem-vindo para vencer os percalços é diversificar os preparos. Foi por isso que o Serviço de Alimentação do Sírio-Libanês publicou seu Guia de Receitas para o Paciente Oncológico (disponível impresso e no site do hospital). Além de trazer instruções para refeições saborosas

e nutritivas, ele ensina a agregar ingredientes que ajudam a minimizar os efeitos adversos do tratamento. Contar com ideias fora da caixa, e o suporte de médicos e nutricionistas, pode fazer a diferença na jornada contra o câncer — o que, convenhamos, vai muito além de encher o estômago.


Desconfie de milagres


Vira e mexe deparamos com propagandas de chás supostamente incríveis contra o câncer. Não caia numa furada dessas! “Não existem dietas ou alimentos, até esse momento, que tenham demonstrado poder curar a doença”, afirma Andrea Pereira, nutróloga do Einstein. Algumas receitas naturais podem até ter efeitos colaterais e atrapalhar o tratamento. “Não consuma nada de diferente antes de conversar com o oncologista e nunca abandone a terapia prescrita por uma dieta ou alimento milagroso”, frisa a médica.