Deficiências nutricionais com o uso das "canetas emagrecedoras"
- Dra.Andrea Pereira

- há 23 horas
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A essencialidade do acompanhamento nutricional no tratamento da obesidade
Não há dúvida de que os análogos do GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras, revolucionaram o tratamento da obesidade. Pela primeira vez, observamos medicamentos capazes de promover perdas de peso expressivas, melhora metabólica e redução de risco cardiovascular.
Mas existe um ponto que precisa entrar definitivamente na discussão científica: o impacto nutricional dessas terapias. Um artigo recente publicado na revista Clinical Obesity revisou os principais estudos, com mais de 480 pacientes, sobre deficiências nutricionais associadas aos análogos de GLP-1, incluindo semaglutida, liraglutida e tirzepatida. Os dados chamam a atenção.

Entre os achados mais relevantes, encontraram uma deficiência de vitamina D em até 13,6% dos pacientes após 12 meses de uso dos análogos; redução importante dos níveis de ferritina e aumento do risco de anemia ferropriva; ingestão insuficiente de cálcio e proteína em grande parte dos usuários; aumento progressivo de deficiência de vitaminas do complexo B, especialmente tiamina e B12; perda significativa de massa magra e maior risco de sarcopenia.
Essas alterações não parecem ocorrer apenas pela medicação isoladamente, mas por um conjunto de mecanismos fisiológicos, tais como: supressão importante do apetite, ingestão calórica extremamente baixa em alguns pacientes (<800 kcal/dia), atraso do esvaziamento gástrico, possível alteração da absorção intestinal e rápida perda ponderal com aumento da demanda metabólica.
Talvez o dado mais preocupante seja que mais de 90% dos pacientes iniciaram GLP-1 sem acompanhamento nutricional estruturado. Isso reforça uma reflexão importante: a obesidade é uma doença crônica complexa, e seu tratamento também precisa ser complexo, multidisciplinar e metabolicamente responsável. Não se resumindo à perda de peso. Precisamos preservar a massa muscular, a funcionalidade, o estado nutricional e aqualidade de vida.

Outro ponto extremamente relevante, trazido à luz pela revisão, foi o alerta sobre a deficiência de tiamina (vitamina B1), especialmente em pacientes com rápida perda de peso, náuseas persistentes ou vômitos. Casos de encefalopatia de Wernicke já foram descritos na literatura associados ao uso de semaglutida, que pode levar a morte.
Isso não significa demonizar os análogos de GLP-1. Pelo contrário. Essas medicações representam um avanço histórico no tratamento da obesidade e provavelmente mudarão o curso de diversas doenças crônicas nas próximas décadas. Mas sim nos lembrar de algo fundamental:o emagrecimento não é sinônimo automático de saúde nutricional; portanto, o acompanhamento médico e nutricional é fundamental em todo esse processo.
O futuro do tratamento da obesidade não deve ser apenas “quanto peso o paciente perdeu”; portanto, devemos nos preocupar com a composição corporal, a prevenção de deficiências nutricionais, os cuidados com a funcionalidade e a qualidade de vida e a melhora da saúde.
A obesidade precisa ser tratada com ciência. Mas também com acompanhamento e responsabilidade clínica.



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