Saúde mental e canetas emagrecedoras: o que a ciência revela?
- Dra.Andrea Pereira

- há 11 minutos
- 5 min de leitura
Semaglutida e tirzepatida aumentam o risco de depressão, ansiedade ou pensamentos suicidas?
Os medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” transformaram o tratamento da obesidade. Semaglutida, liraglutida e, mais recentemente, tirzepatida possibilitaram perdas de peso antes difíceis de alcançar apenas com mudanças no estilo de vida.
Ao mesmo tempo, com milhões de pessoas utilizando essas medicações, surgiu uma preocupação importante: os agonistas do GLP-1 poderiam aumentar o risco de depressão, ansiedade, alterações de humor ou até pensamentos suicidas?
Essa questão ganhou tanta relevância que órgãos reguladores passaram a investigar especificamente a segurança psiquiátrica desses medicamentos.
E os estudos mais recentes ajudam a compreender melhor essa relação.

Obesidade e saúde mental: uma relação de mão dupla
Antes de discutir os medicamentos, precisamos lembrar que a própria obesidade está relacionada à saúde mental.
Pessoas com obesidade apresentam maior frequência de depressão, ansiedade e comprometimento da qualidade de vida. Por outro lado, transtornos psiquiátricos também podem contribuir para ganho de peso por diferentes mecanismos, incluindo alterações do apetite, redução da atividade física e efeitos de determinados medicamentos.
Além dos mecanismos biológicos, existe outro componente muito importante: o estigma da obesidade. Preconceito, discriminação, baixa autoestima e isolamento social podem ter impacto significativo sobre o bem-estar psicológico. A saúde mental, portanto, deve fazer parte da abordagem integral da obesidade — algo que já venho discutindo há alguns anos. (draandreanutrologia.com.br)
Isso torna particularmente difícil responder a uma pergunta aparentemente simples: quando uma pessoa em tratamento para obesidade desenvolve depressão ou ansiedade, qual é o papel da doença de base, das circunstâncias psicossociais, da perda de peso e do próprio medicamento?
O sinal de alerta inicial
Em 2024, um estudo publicado no International Journal of Clinical Pharmacy analisou notificações de eventos adversos relacionadas a semaglutida, liraglutida e tirzepatida registradas no banco europeu EudraVigilance entre janeiro de 2021 e maio de 2023.
Foram identificadas 31.444 notificações de eventos adversos. Destas, 372 envolviam eventos psiquiátricos, correspondendo a aproximadamente 1,18% dos relatos. Entre essas notificações psiquiátricas, depressão, ansiedade e ideação suicida foram os eventos mais frequentemente registrados.
Esses resultados chamaram atenção e justificaram uma investigação cuidadosa.
Mas existe uma diferença fundamental entre um sinal de farmacovigilância e a demonstração de que determinado medicamento causa um evento.
Bancos de notificações espontâneas são extremamente importantes para detectar possíveis problemas de segurança, mas não permitem, isoladamente, estabelecer uma relação de causa e efeito.
Era necessário, portanto, estudar populações maiores e utilizar outros desenhos de pesquisa.
O que mostrou um estudo de 2026?
Um estudo publicado em 2026 na Communications Medicine analisou dados de prontuários eletrônicos dos Estados Unidos entre 2020 e 2025.
Os pesquisadores estudaram adultos com obesidade que iniciaram semaglutida ou tirzepatida e compararam seus resultados neuropsiquiátricos com os de pacientes que iniciaram outros medicamentos para perda de peso. O acompanhamento chegou a 24 meses.
Os resultados foram bastante interessantes.
Quando comparada à naltrexona-bupropiona, a semaglutida esteve associada a menor risco de ansiedade e depressão, tanto entre pessoas com diabetes tipo 2 quanto entre aquelas sem diabetes.
A tirzepatida apresentou um padrão semelhante, também estando associada a menores riscos de ansiedade e depressão em várias dessas comparações.
Isso não significa que semaglutida ou tirzepatida sejam tratamentos para depressão ou ansiedade. O estudo é observacional e demonstra associação, não causalidade.
Além disso, apareceu uma nuance importante: entre pessoas com obesidade sem diabetes tipo 2, a comparação direta mostrou que a tirzepatida esteve associada a riscos relativos discretamente maiores de ansiedade e insônia do que a semaglutida. Os próprios pesquisadores ressaltam que esses resultados precisam ser confirmados.
Portanto, a mensagem científica não é simplesmente “faz bem” ou “faz mal”. Os resultados dependem do medicamento utilizado, do grupo de comparação e das características clínicas dos pacientes.
E quanto ao risco de suicídio?
Aqui ocorreu uma mudança importante nas evidências. Em janeiro de 2026, a FDA, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, anunciou que sua avaliação abrangente não identificou aumento do risco de ideação ou comportamento suicida associado aos agonistas do GLP-1.
Como consequência, a agência solicitou a retirada dessa advertência das informações de prescrição de medicamentos que ainda a continham, incluindo Saxenda (liraglutida), Wegovy (semaglutida) e Zepbound (tirzepatida).
E a dimensão dessa avaliação merece atenção.
A FDA realizou uma meta-análise envolvendo 91 ensaios clínicos controlados por placebo e 107.910 participantes — 60.338 tratados com agonistas do GLP-1 e 47.572 com placebo.
A análise não demonstrou aumento do risco de ideação ou comportamento suicida, nem de outros eventos psiquiátricos avaliados, como ansiedade, depressão, irritabilidade ou psicose.
A agência também analisou dados do sistema Sentinel envolvendo mais de 2,2 milhões de pessoas e não encontrou aumento do risco de autolesão intencional entre usuários de agonistas do GLP-1 quando comparados aos usuários de inibidores de SGLT2.
Considerando conjuntamente ensaios clínicos, estudos observacionais e outros dados disponíveis, a conclusão da FDA foi de que as evidências não sustentam uma relação causal entre agonistas do GLP-1 e ideação ou comportamento suicida.
Então as canetas emagrecedoras não interferem na saúde mental?
Não devemos interpretar os novos dados dessa maneira. A conclusão mais adequada é que, até o momento, as melhores evidências disponíveis não demonstram aumento do risco de ideação ou comportamento suicida causado pelos agonistas do GLP-1.
Isso é diferente de afirmar que nenhum paciente poderá apresentar alterações de humor durante o tratamento.
Cada pessoa tem história clínica, vulnerabilidades e condições psiquiátricas próprias. Além disso, o processo de emagrecimento envolve mudanças físicas, sociais, comportamentais e emocionais importantes.
Por essa razão, sintomas novos ou agravados de depressão, mudanças importantes de humor ou pensamentos suicidas devem sempre ser comunicados ao médico e avaliados adequadamente. A própria FDA mantém essa recomendação, apesar da retirada do alerta específico das bulas.
O tratamento da obesidade vai muito além da balança
Talvez essa seja a principal mensagem. A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Seu tratamento não pode ser avaliado exclusivamente pelo número de quilos perdidos.
Precisamos acompanhar saúde metabólica, composição corporal, estado nutricional, funcionalidade, comportamento alimentar, qualidade de vida e também saúde mental.
Semaglutida, tirzepatida e outros medicamentos modernos representam um enorme avanço no tratamento da obesidade. Mas medicamento não substitui acompanhamento médico, nutricional e, quando indicado, psicológico ou psiquiátrico.
A ciência também evolui. Um sinal de segurança identificado em bancos de farmacovigilância precisa ser investigado — e foi exatamente isso que aconteceu neste caso. Estudos posteriores, com populações muito maiores e diferentes metodologias, trouxeram informações mais robustas e tranquilizadoras.
Hoje, as evidências não sustentam que os agonistas do GLP-1 aumentem o risco de suicídio. Alguns estudos observacionais sugerem inclusive menor ocorrência de determinados diagnósticos de ansiedade e depressão em algumas comparações, mas ainda não podemos afirmar que esses medicamentos tenham efeito protetor sobre a saúde mental.
O mais importante continua sendo tratar a pessoa, e não apenas o peso.
Emagrecer é uma parte do tratamento. Melhorar a saúde — física e mental — é o verdadeiro objetivo.
Referências principais
Tobaiqy M, Elkout H. Psychiatric adverse events associated with semaglutide, liraglutide and tirzepatide: a pharmacovigilance analysis of individual case safety reports submitted to the EudraVigilance database. International Journal of Clinical Pharmacy. 2024;46:488–495.
Huang YN, Liu KW, Li PH, et al. Neuropsychiatric association of tirzepatide and semaglutide in obesity with and without type 2 diabetes. Communications Medicine. 2026.
U.S. Food and Drug Administration. FDA Requests Removal of Suicidal Behavior and Ideation Warning from Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist (GLP-1 RA) Medications. Janeiro de 2026.



Comentários