Obesidade é doença crônica: por que o peso pode voltar após o tratamento?
Em entrevista à CBN Maringá, conversei sobre uma questão fundamental para compreendermos melhor o tratamento da obesidade: perder peso não significa necessariamente que a doença deixou de existir.
A obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Isso significa que, assim como acontece com outras condições crônicas, seu controle pode exigir acompanhamento e estratégias terapêuticas de longo prazo.
Essa mudança de perspectiva é especialmente importante em um momento em que medicamentos para o tratamento da obesidade ganharam enorme visibilidade e muitas pessoas passaram a enxergar a perda de peso como um processo com começo, meio e fim.
Na prática, a situação é mais complexa.

Por que o peso pode voltar?
Durante o emagrecimento, o organismo não permanece passivo. Diversos mecanismos fisiológicos entram em ação na tentativa de recuperar o peso perdido.
Podem ocorrer alterações nos sinais relacionados à fome e à saciedade, no gasto energético e em outros mecanismos envolvidos na regulação do peso corporal. Em outras palavras, depois de uma perda significativa de peso, o organismo pode biologicamente favorecer a recuperação de parte do peso perdido.
Por isso, o reganho de peso não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou de força de vontade.
Essa visão é importante também para combater o estigma associado à obesidade. Estamos diante de uma doença influenciada por fatores biológicos, genéticos, ambientais, comportamentais, sociais e psicológicos.
E o que acontece quando o medicamento é suspenso?
A chegada dos novos medicamentos para obesidade transformou as possibilidades de tratamento. Os resultados obtidos com algumas dessas terapias são expressivos e representam um importante avanço.
Mas existe uma questão que precisa ser discutida desde o início: o que acontece depois?
Quando um medicamento controla uma doença crônica, sua retirada pode permitir que mecanismos envolvidos na doença voltem a se manifestar. No tratamento da obesidade, isso pode significar aumento da fome, redução da saciedade e recuperação progressiva do peso.
Isso não significa necessariamente que todas as pessoas precisarão utilizar a mesma medicação, na mesma dose, indefinidamente. Significa que a estratégia de manutenção precisa fazer parte do planejamento terapêutico.
Iniciar um tratamento pensando apenas em quantos quilos serão perdidos nos próximos meses é uma visão incompleta. Precisamos também discutir como preservar os benefícios alcançados.
A cirurgia bariátrica também exige acompanhamento
Na entrevista à CBN Maringá, também destaquei que o mesmo princípio se aplica à cirurgia bariátrica.
A cirurgia é uma ferramenta extremamente importante no tratamento da obesidade e pode produzir perda de peso significativa e melhora de diversas doenças associadas.
Entretanto, ela não transforma a obesidade em uma doença que deixou de necessitar acompanhamento.
Ao longo dos anos, alguns pacientes podem apresentar recuperação de peso. Além disso, o seguimento após a cirurgia é fundamental para acompanhar alimentação, composição corporal, atividade física, possíveis deficiências nutricionais e outras condições clínicas.
Portanto, nem o medicamento nem a cirurgia devem ser vistos isoladamente como uma “cura rápida” para a obesidade.
O objetivo não é apenas emagrecer
Talvez essa seja uma das principais mudanças que precisamos fazer quando falamos sobre obesidade.
O sucesso do tratamento não deveria ser medido exclusivamente pelo número mostrado na balança.
Precisamos considerar também a melhora da saúde metabólica, da pressão arterial, do diabetes quando presente, da mobilidade, da capacidade funcional, da qualidade de vida e de outros fatores de risco associados ao excesso de adiposidade.
Também precisamos preservar massa muscular e prevenir deficiências nutricionais durante o processo de perda de peso.
O objetivo, portanto, não é simplesmente perder peso.
É tratar uma doença e reduzir seus impactos sobre a saúde.
Tratamento da obesidade é uma jornada de longo prazo
Dietas, atividade física, medicamentos, acompanhamento nutricional, suporte psicológico e cirurgia bariátrica não precisam ser vistos como estratégias concorrentes. Dependendo das características de cada pessoa, diferentes ferramentas podem ser utilizadas em diferentes momentos.
O mais importante é compreender que a obesidade requer uma abordagem individualizada e acompanhamento ao longo do tempo.
A perda de peso é uma etapa importante. Conseguir manter os benefícios obtidos e cuidar da saúde no longo prazo é parte igualmente importante do tratamento.
Foi justamente sobre essa necessidade de mudarmos a maneira como enxergamos a obesidade que conversei com a CBN Maringá.
Ouça a entrevista completa:CBN Maringá — “Obesidade é doença crônica e tratamento precisa ser constante, diz especialista”.



Comentários