Canetas emagrecedoras biossimilares: mais opções significam tratamento mais acessível?
ENTREVISTA JORNAL DA BAND
A expansão dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade está entrando em uma nova fase. Além das marcas que se tornaram conhecidas nos últimos anos, novos produtos começam a chegar ao mercado, aumentando a concorrência e trazendo uma pergunta importante: as chamadas canetas emagrecedoras biossimilares poderão tornar o tratamento da obesidade mais acessível?
Falei sobre esse tema em entrevista ao Jornal da Band, em reportagem que discutiu a chegada de novas opções ao mercado e a expectativa de redução dos preços desses medicamentos.
Mais concorrência pode significar maior acesso
O custo ainda é uma das principais barreiras ao tratamento farmacológico da obesidade. Medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 revolucionaram o manejo da doença, mas seu preço pode dificultar a manutenção do tratamento por períodos prolongados.
A entrada de novos fabricantes e produtos tende a aumentar a concorrência e pode contribuir para a redução dos preços. Do ponto de vista da saúde pública, isso é particularmente relevante porque estamos falando de uma doença crônica que atinge milhões de brasileiros.
Entretanto, mais opções no mercado não significam que todos os medicamentos sejam automaticamente equivalentes ou adequados para todos os pacientes.
Biossimilar, genérico e medicamento manipulado não são a mesma coisa
Esse é um ponto que merece atenção.
No uso cotidiano, diferentes versões de medicamentos podem acabar sendo chamadas genericamente de "similares", mas existem diferenças regulatórias e farmacêuticas importantes entre medicamentos de referência, genéricos, similares, biossimilares e produtos manipulados.
Além disso, nem toda "caneta emagrecedora" utiliza a mesma molécula. Semaglutida, liraglutida e tirzepatida, por exemplo, apresentam características farmacológicas diferentes.
Por isso, não devemos avaliar um medicamento apenas pelo formato da caneta ou pelo fato de ele pertencer à mesma grande família terapêutica.
O preço não pode ser o único critério
A redução do custo é uma excelente notícia quando amplia o acesso a tratamentos eficazes. Mas, em medicamentos utilizados para tratar obesidade, é fundamental avaliar também qual é o princípio ativo, a indicação aprovada, as evidências científicas disponíveis, a procedência do produto e a regularização junto às autoridades sanitárias.
Também é necessário considerar armazenamento e conservação adequados. Muitos desses medicamentos são produtos injetáveis que exigem condições específicas para manter sua estabilidade.
Comprar exclusivamente pelo menor preço, principalmente por canais não confiáveis, pode representar um risco.
Caneta emagrecedora não substitui tratamento da obesidade
Outro aspecto que destaquei na discussão é que esses medicamentos não devem ser vistos simplesmente como produtos para "emagrecer".
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. O tratamento precisa considerar não apenas a redução do peso corporal, mas também composição corporal, alimentação, atividade física, sono, saúde metabólica, doenças associadas e manutenção dos resultados no longo prazo.
O acompanhamento médico permite ainda avaliar contraindicações, efeitos adversos, resposta ao tratamento e necessidade de ajustes de dose ou mesmo de mudança da estratégia terapêutica.
Democratizar o tratamento é uma evolução importante
A chegada de novas opções pode representar uma mudança positiva no tratamento da obesidade no Brasil. Quanto maior a concorrência, maior a possibilidade de redução de custos e, consequentemente, de ampliação do acesso.
Esse movimento, entretanto, precisa caminhar junto com regulação, controle de qualidade, informação adequada e prescrição responsável.
O objetivo não deve ser simplesmente termos mais "canetas emagrecedoras" disponíveis. O avanço real acontece quando conseguimos oferecer a mais pessoas tratamentos eficazes, seguros, baseados em evidências e que possam ser sustentados no longo prazo.
Assista à minha participação no Jornal da Band sobre o tema.
Dra. Andrea Pereira — Médica Nutróloga, MD, PhD




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