GLP-1 e câncer: o que o ASCO 2026 mostrou sobre metástases e sobrevida
- Dra.Andrea Pereira

- há 8 horas
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Novos estudos do ASCO 2026, o maior Congresso do Mundo sobre Oncologia, associaram agonistas de GLP-1 a menor progressão metastática em alguns cânceres. Entenda os resultados, limitações e o que eles significam para pacientes.
Os agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos que ganharam enorme destaque no tratamento do diabetes tipo 2 e, principalmente, da obesidade, estão começando a ocupar espaço em uma discussão que vai muito além da perda de peso: qual pode ser o papel dessas medicações em pessoas com câncer?
No ASCO 2026, principal congresso mundial de oncologia, novos estudos trouxeram resultados bastante interessantes. Em algumas análises, pacientes com câncer que utilizavam agonistas de GLP-1 apresentaram menor progressão para doença metastática e melhores desfechos de sobrevida.
Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados com cautela. Até o momento, não podemos dizer que medicamentos como semaglutida ou tirzepatida previnam metástases ou tratem o câncer.
O que temos são sinais científicos importantes que justificam novas pesquisas.

GLP-1: muito além da perda de peso
Os agonistas do receptor de GLP-1 foram inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2. Posteriormente, seu potente efeito sobre o controle do apetite e o peso corporal transformou esses medicamentos em uma das principais ferramentas atuais para o tratamento da obesidade.
Mas seus efeitos metabólicos são mais amplos.
Além da redução de peso e da melhora do controle glicêmico, os agonistas de GLP-1 podem atuar sobre fatores como:
resistência à insulina;
hiperinsulinemia;
inflamação sistêmica;
metabolismo energético;
risco cardiovascular;
alguns mecanismos imunometabólicos.
Esses fatores também estão relacionados à biologia do câncer.
Por isso, surgiu uma pergunta inevitável: será que os benefícios metabólicos dos agonistas de GLP-1 podem influenciar também a evolução de determinados tumores?
O que o ASCO 2026 mostrou?
Um dos trabalhos de maior repercussão no congresso foi o Abstract 3143, apresentado por pesquisadores da Cleveland Clinic.
O estudo utilizou dados da rede internacional TriNetX e avaliou pacientes com câncer em estágios I a III que iniciaram tratamento com agonistas de GLP-1 depois do diagnóstico.
Foram estudados sete tipos de tumores:
câncer de mama;
câncer de pulmão de não pequenas células;
câncer colorretal;
carcinoma hepatocelular;
câncer de próstata;
carcinoma de células renais;
adenocarcinoma de pâncreas.
Os pacientes que utilizavam agonistas de GLP-1 foram comparados a pacientes semelhantes que utilizavam inibidores da DPP-4, outro grupo de medicamentos para diabetes. A análise levou em consideração diferentes características clínicas, incluindo índice de massa corporal, fatores glicêmicos, tabagismo, comorbidades, tratamentos oncológicos e outros medicamentos.
Menor progressão para doença metastática
Os resultados chamaram atenção.
Houve redução estatisticamente significativa da progressão para doença metastática em quatro dos sete tumores avaliados:
Câncer de pulmão de não pequenas células:hazard ratio de 0,50, correspondendo a uma redução relativa de aproximadamente 50% no risco de progressão.
Câncer de mama:hazard ratio de 0,57, aproximadamente 43% menor risco relativo.
Câncer colorretal:hazard ratio de 0,69, aproximadamente 31% menor risco relativo.
Carcinoma hepatocelular:hazard ratio de 0,62, aproximadamente 38% menor risco relativo.
Em câncer de próstata, rim e pâncreas também houve numericamente menos eventos em alguns grupos, porém as diferenças não atingiram significância estatística.
No câncer de mama, por exemplo, a progressão para doença metastática ocorreu em 10,2% dos pacientes que utilizaram GLP-1RA versus 20,1% no grupo comparador.
Esses resultados não demonstram que o GLP-1 impediu as metástases. Eles mostram uma associação entre o uso dessas medicações e menor progressão da doença.
Essa diferença é fundamental.
E o receptor de GLP-1 dentro do tumor?
Outro achado interessante veio da análise da expressão do próprio receptor de GLP-1 nos tumores.
Utilizando informações do The Cancer Genome Atlas, os pesquisadores observaram que uma maior expressão tumoral do receptor de GLP-1 esteve associada a melhor sobrevida global nos tumores avaliados.
Considerando os sete tipos de câncer em conjunto, a maior expressão do receptor esteve associada a um hazard ratio para mortalidade de 0,67.
No câncer de mama, a associação foi ainda mais significativa, com hazard ratio de 0,55.
Esse é um achado particularmente interessante porque levanta a hipótese de que o sistema GLP-1 possa estar relacionado à própria biologia tumoral.
Entretanto, ainda não sabemos se essa associação representa um efeito direto do receptor sobre o tumor ou apenas um marcador relacionado a outras características biológicas.
O que já sabemos sobre GLP-1 e câncer de mama?
Essa discussão é especialmente relevante para mulheres com câncer de mama e obesidade.
Um estudo publicado em 2026 no JAMA Network Open avaliou sobrevida e recorrência em pacientes com câncer de mama que utilizaram agonistas do receptor de GLP-1.
Os autores encontraram associações promissoras entre o uso desses medicamentos após o diagnóstico de câncer de mama e melhores desfechos oncológicos. Entretanto, ressaltaram claramente que o desenho retrospectivo do estudo não permite estabelecer causalidade.
Os próprios pesquisadores concluíram que os resultados justificam estudos prospectivos para determinar melhor os riscos, benefícios, momento ideal e perfil de pacientes nos quais o tratamento com GLP-1 poderia ser utilizado.
Portanto, o conjunto das evidências começa a apontar em uma direção interessante, mas ainda estamos em uma fase de geração de hipóteses.
Por que tratar a obesidade poderia influenciar o câncer?
Existe uma relação complexa entre obesidade e câncer.
O excesso de tecido adiposo não representa apenas armazenamento de energia. O tecido adiposo é metabolicamente ativo e pode participar da produção de hormônios, adipocinas e mediadores inflamatórios.
Entre os mecanismos potencialmente relacionados à carcinogênese e à progressão tumoral estão:
Inflamação crônica: a obesidade está associada a um estado persistente de inflamação de baixo grau.
Resistência à insulina e hiperinsulinemia: concentrações elevadas de insulina e ativação de vias como IGF-1 podem favorecer proliferação celular em determinados contextos.
Alterações hormonais: particularmente relevantes em tumores hormônio-dependentes, como alguns cânceres de mama.
Disfunção do tecido adiposo: alterações de adipocinas e do microambiente metabólico podem favorecer vias relacionadas ao desenvolvimento tumoral.
Ao melhorar o peso corporal, a resistência à insulina e alguns desses mecanismos metabólicos, os agonistas de GLP-1 poderiam teoricamente contribuir para um ambiente menos favorável à progressão tumoral.
Também estão sendo investigadas hipóteses de efeitos diretos sobre células tumorais, imunidade e microambiente tumoral. A própria ASCO destaca essas possibilidades como áreas prioritárias para futuras pesquisas.
Isso significa que GLP-1 trata câncer?
Não. Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda essa discussão.
Até o momento, agonistas de GLP-1 não são medicamentos antineoplásicos.
Eles não substituem:
cirurgia;
quimioterapia;
radioterapia;
hormonioterapia;
imunoterapia;
terapias-alvo;
acompanhamento com oncologista.
Os resultados apresentados no ASCO 2026 são predominantemente provenientes de dados do mundo real e estudos observacionais.
Esse tipo de pesquisa é extremamente importante, mas pode sofrer influência de diferenças entre os grupos estudados — inclusive fatores que nem sempre conseguem ser completamente corrigidos pelas análises estatísticas.
O próprio estudo do JAMA sobre câncer de mama destaca limitações como desenho retrospectivo, dependência de registros eletrônicos, ausência de dados individuais sobre perda de peso e impossibilidade de determinar se as associações observadas resultam diretamente do medicamento.
Por isso, precisamos de ensaios clínicos prospectivos e randomizados antes de considerar esses medicamentos como uma estratégia para modificar diretamente a evolução do câncer.
Quem tem câncer pode usar medicamentos como semaglutida ou tirzepatida?
Não existe uma resposta única.
Em algumas pessoas com câncer e obesidade, tratar adequadamente a obesidade pode trazer benefícios importantes para saúde metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente para alguns desfechos relacionados ao câncer.
Por outro lado, existem situações nas quais a perda de peso pode ser indesejável ou até prejudicial.
É necessária especial cautela em pacientes com:
perda involuntária de peso;
baixa ingestão alimentar;
sarcopenia;
fragilidade;
caquexia;
náuseas ou vômitos importantes;
tratamentos oncológicos que já comprometem a ingestão alimentar.
O acompanhamento nutricional torna-se particularmente importante porque o uso de agonistas de GLP-1 pode estar associado à redução importante da ingestão de alimentos.
Uma revisão publicada em 2026 descreveu aumento de algumas deficiências nutricionais durante o tratamento com agonistas de GLP-1, incluindo vitamina D, ferro e perda muscular, reforçando a importância da avaliação nutricional durante o tratamento.
Em pacientes oncológicos, preservar massa muscular e estado nutricional é parte fundamental do cuidado.
Estamos diante de uma nova área da oncologia?
Possivelmente. Durante muitos anos, a principal pergunta era:
“Os agonistas de GLP-1 são seguros em relação ao câncer?”
Agora surge uma pergunta diferente:
“Além de tratar obesidade e diabetes, esses medicamentos poderiam influenciar positivamente alguns desfechos oncológicos?”
Ainda não temos uma resposta definitiva.
Mas os dados apresentados no ASCO 2026 tornam essa uma das áreas mais interessantes da interface entre obesidade, metabolismo e oncologia.
A própria ASCO considera que resultados dessa magnitude justificam estudos clínicos prospectivos e randomizados para investigar de maneira adequada essa possível relação.
Para levar para casa
Os novos estudos não demonstram que medicamentos como semaglutida ou tirzepatida tratem câncer.
Mas mostram algo igualmente relevante: até o momento, os dados não apontam para piora dos desfechos oncológicos e começam a surgir associações entre o uso dos agonistas de GLP-1 e menor progressão metastática em alguns tumores.
No ASCO 2026, os resultados mais consistentes foram observados em câncer de pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado.
É uma mudança importante na forma como discutimos esses medicamentos.
O tratamento da obesidade não deve ser visto apenas como uma estratégia estética ou simplesmente como uma maneira de reduzir números na balança.
Obesidade é uma doença crônica e seu tratamento pode ter repercussões sobre inúmeras outras doenças. A oncologia parece ser mais uma área na qual essa relação merece ser investigada profundamente.
A ciência ainda não chegou à resposta final.
Mas o ASCO 2026 deixou uma pergunta muito interessante para os próximos anos:
será que tratar adequadamente a obesidade poderá também modificar a história de alguns tipos de câncer?



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