#edtw: conheça a subcomunidade do X que incentiva transtornos alimentares
- Dra.Andrea Pereira

- há 7 horas
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Essa semana dei entrevista para a Gazeta de São Paulo sobre emagrecimento decorrente de transtornos alimentares.
O #edtw é uma das diversas subcomunidades anônimas que existem na rede, cultuando estilos de vida nocivos e até criminosos sob nenhuma fiscalização
GAZETA DE SÃO PAULO - Larissa Crippa 27.07.2026

A pressão estética sempre existiu, principalmente sobre as mulheres. Mas a modernidade possibilita que esse problema crie novas camadas cada vez mais problemáticas e, pior, fáceis de propagar, como é o caso do #edtw (Eating Disorder Twitter).
O #edtw existe desde antes da plataforma mudar de nome para X. Trata-se de uma das diversas subcomunidades anônimas que existem na rede, cultuando estilos de vida nocivos e até criminosos sob nenhuma fiscalização.
Postando sob a hashtag #edtw, perfis anônimos compartilham fotos de corpos cadavéricos, competem por quem passa mais tempo sem comer, trocam cardápios com calorias mínimas e destilam ódio contra qualquer corpo que não se encaixe na extrema magreza.
Essa subcultura não surge no vácuo. Ela ganha tração em um momento em que a cultura pop e as redes sociais resgatam estéticas dos anos 1990 e 2000, como o heroin chic, e impulsionam o uso desenfreado de canetas emagrecedoras do tipo Ozempic e Mounjaro, remédios para diabetes tipo 2 e obesidade que viraram “fórmula mágica” de emagrecimento rápido entre celebridades e influenciadores.
Enquanto escrevo isso, inclusive, um vídeo da Malu Borges fazendo exercício físico apenas duas semanas depois de parir aparece no meu feed. A urgência pela magreza é letal.
O resultado é um feed inundado por aparências milagrosamente finas, transformando o corpo humano em uma tendência passageira e empurrando vulneráveis para o abismo dos transtornos alimentares. Importante ressaltar que a doença pode afetar pessoas diversas, independente de sexo, cor, peso ou etnia.
O pertencimento pela autodestruição
Para entender por que esses fóruns atraem tantas pessoas, é preciso olhar para além do peso. O culto à magreza é um fenômeno social em que estar magro passa a simbolizar sucesso, autocontrole e valor pessoal. Quando isso entra no ecossistema digital, ganha contornos de seita.
Como explica a psicóloga cognitivo-comportamental Rejane Sbrissa, especialista em distúrbios alimentares, o motor dessas comunidades é a busca desesperada por conexão:
“Essas comunidades funcionam porque oferecem exatamente o que muitos jovens procuram: acolhimento, identidade e validação. O problema é que esse pertencimento vem acompanhado da normalização da autodestruição. O jovem cria a sensação de que ‘ninguém o entende como eles’. No fundo, ele não busca passar fome, ele busca ser visto, aceito e sentir que pertence a algum lugar.”
A aprovação por meio de desafios de jejum e metas punitivas transforma a própria doença em uma identidade. O sofrimento vira troféu e essas pessoas não reconhecem que estão doentes.
Linguagem codificada: a armadilha do “bem-estar”
Uma das maiores dificuldades em combater o EDTW é a facilidade com que esses grupos escapam da moderação das redes e dos olhares atentos dos pais. O conteúdo perigoso se veste de “estilo de vida saudável”.
Termos como “jejum estético”, emojis específicos (como borboletas ou ossos) e abreviações funcionam como senhas de acesso. Restrições severas são mascaradas sob slogans de “foco”, “disciplina” ou “autocuidado”.
E essa camuflagem não é apenas social; é também científica. O grupo frequentemente apropria-se de termos biológicos para validar a privação. No entanto, a médica nutróloga Dra. Andrea Pereira, presidente do Instituto Obesidade Brasil, destaca a fronteira clara entre a medicina e a inanição:
“O jejum intermitente de curto prazo tem indicações clínicas específicas em estudos para obesidade ou câncer, por exemplo, e não é para todo mundo. Quando não existe indicação médica e a prática é feita por longos períodos, ela deixa de ser conduta de saúde e passa a ser privação perigosa.”
A Dra. Andrea alerta ainda para os riscos fisiológicos imediatos de seguir tais “dicas”. Sem glicose, a principal fonte de energia do cérebro, o corpo busca combustível onde pode:
“Se a pessoa já é magra, o organismo passa a quebrar músculo. A perda de massa muscular está associada a piores prognósticos, fraqueza, queda de imunidade e falha vital. Sem combustível no cérebro, a memória e o raciocínio ficam profundamente prejudicados, levando a desmaios, prejuízos cognitivos e até ao coma.”
O perigo da medicação sem controle
Além de cortar a comida, esses fóruns incentivam atalhos perigosos: o uso desregrado de laxantes, diuréticos, inibidores de apetite e medicamentos injetáveis. Em um organismo já desnutrido, o efeito da automedicação pode ser fatal. Segundo a Dra. Andrea Pereira, o uso indevido desses fármacos provoca a perda massiva de eletrólitos essenciais, abrindo espaço para falência renal, paradas cardíacas e morte.
O abismo se aprofunda quando o corpo atinge o limite e necessita de internação. A reabilitação de um paciente em estado grave precisa ser rigorosamente monitorada para evitar a Síndrome de Realimentação, um desbalanço metabólico severo que ocorre quando o organismo cede de forma abrupta após longo período sem nutrientes, podendo provocar parada cardiorrespiratória.
“A síndrome de realimentação pode levar a parada cardíaca e morte. Além disso, o transtorno alimentar grave é uma doença psiquiátrica, devendo ser acompanhada por esse profissional também. Nem todos que praticam o jejum tem transtornos alimentares, anorexia e bulimia, mas é muito comum restrições extremas de alimentação nesses grupos, trazendo uma série de consequências a saúde”, reforça Andrea.
Desconstruindo a dor e recuperando a vida
Sair desse ciclo exige intervenção multidisciplinar urgente, unindo psiquiatria, psicologia e nutrologia. Do ponto de vista emocional, o caminho de volta exige desligar a ideia de que o sofrimento traz virtude.
A psicóloga Rejane Sbrissa pontua que o foco na terapia é ressignificar conceitos distorcidos:
“O trabalho envolve desconstruir a crença de que passar fome é sinônimo de disciplina ou valor. A terapia ajuda a diferenciar uma disciplina saudável de autolesão disfarçada. Reconstruímos o autocontrole: controlar-se não é punir o corpo, mas sim cuidar dele, reconhecer necessidades e tolerar emoções difíceis como ansiedade e dor sem precisar recorrer ao castigo físico.”
O X não fará nada, os doentes dependem de rede de apoio
Para pais, educadores e amigos, o alerta final fica para os sinais silenciosos. Rejane explica que o perigo se manifesta na mudança de comportamento: o isolamento social na hora das refeições, a preocupação obsessiva com calorias, a perda de flexibilidade na rotina e a oscilação extrema de humor.
“Pensamento constante sobre comida, calorias, peso ou corpo, com grande parte do dia tomada por essas preocupações, sensação de culpa ou fracasso ao comer determinados alimentos, medo intenso de ganhar peso, restrição cada vez maior e uma lista de alimentos “proibidos” que aumenta progressivamente são sintomas de alerta”, explica.
A beleza promovida pelo EDTW e reforçada pelas redes não é estética, é adoecimento mascarado de pertencimento; e sem poder contar com a fiscalização da própria plataforma, a atenção precisa vir de perto.
Isso não significa que familiares e amigos devam se transformar em detetives digitais ou especialistas em saúde mental, até porque identificar esses sinais exige tempo, estabilidade e um repertório que a maioria das pessoas simplesmente não tem. Mas a presença afetuosa e a disposição para escutar sem julgar já costumam ser os primeiros passos.
Quando notar um comportamento estranho, o papel de quem está por perto não é resolver a dor sozinho, mas sim estender a mão e pontuar, com cuidado, a necessidade de buscar ajuda profissional especializada. Cuidar de quem amamos é, acima de tudo, não deixar que o silêncio ganhe espaço.
LINK: #edtw: conheça a subcomunidade do X que incentiva transtornos alimentares - Gazeta de São Paulo



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