Canetas emagrecedoras e saúde da pele: o que a nutrição tem a ver com isso?
- Dra.Andrea Pereira

- há 9 horas
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Medicamentos baseados em GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade. Semaglutida, tirzepatida e outros fármacos dessa família podem promover perdas expressivas de peso e importantes benefícios metabólicos. Mas, à medida que seu uso aumentou, também surgiram dúvidas sobre possíveis alterações na pele, no rosto e nos cabelos.
Flacidez, perda do volume facial, aparência mais envelhecida e queda de cabelo são algumas das queixas relatadas durante tratamentos que promovem emagrecimento importante.

Mas é fundamental esclarecer um ponto: essas alterações não significam necessariamente que o GLP-1 esteja “envelhecendo” diretamente a pele.
Grande parte do fenômeno parece estar relacionada à magnitude e, principalmente, à rapidez da perda de peso, com redução da gordura subcutânea, modificações na composição corporal e, em alguns pacientes, ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas e minerais.
O que acontece com o rosto quando perdemos muito peso?
A pele não está isolada. A aparência do rosto depende da interação entre pele, tecido adiposo, músculos, ligamentos e estrutura óssea.
Durante uma perda significativa de peso, ocorre redução dos compartimentos de gordura que ajudam a sustentar os tecidos faciais. Estudos descrevem perda de volume, especialmente em determinadas regiões da face, acompanhada de maior flacidez e acentuação de sulcos previamente existentes.
É daí que surgiu a expressão popular “Ozempic face”.
O termo, entretanto, pode levar a uma interpretação equivocada. As alterações faciais parecem estar relacionadas principalmente ao emagrecimento rápido e à perda de gordura facial, fenômeno que também pode acontecer após outras formas de perda ponderal importante. Uma revisão recente ressalta que essas mudanças estéticas são secundárias à perda rápida de peso, e não necessariamente consequência de toxicidade farmacológica direta da semaglutida sobre a pele.
A gordura também faz parte da sustentação da pele
Quando pensamos em saúde da pele, lembramos imediatamente de colágeno e elastina. Mas existe outro componente importante: a gordura subcutânea.
O tecido adiposo localizado abaixo e ao redor da pele participa de sua sustentação e influencia volume, contorno e propriedades mecânicas. Com uma perda importante de gordura, essa espécie de “estrutura de suporte” diminui.
A literatura descreve que a redução do tecido adiposo pode estar associada à diminuição da firmeza, modificações das fibras de colágeno e maior frouxidão cutânea.
Por isso, não devemos avaliar o tratamento da obesidade apenas pelo número mostrado na balança.
Emagrecer bem significa reduzir gordura preservando, na medida do possível, massa muscular, funcionalidade e estado nutricional.
E onde entra a nutrição?
Aqui está um dos pontos mais importantes.
Os medicamentos baseados em GLP-1 reduzem significativamente o apetite. Isso é parte do seu mecanismo terapêutico, mas pode fazer com que algumas pessoas passem a comer muito menos — e não necessariamente melhor.
Uma revisão de 2026 identificou inadequações nutricionais relevantes entre usuários de GLP-1, incluindo menor ingestão de proteínas e micronutrientes e alterações relacionadas a vitamina D, ferro, cálcio, tiamina e vitamina B12. Os autores ressaltam, entretanto, que grande parte das evidências ainda é observacional e não permite estabelecer causalidade direta entre a medicação e todas essas deficiências.
Portanto, reduzir calorias não pode significar reduzir a qualidade nutricional da alimentação.
Proteína: prioridade durante o emagrecimento
A ingestão proteica adequada merece atenção especial.
A proteína fornece aminoácidos necessários para diferentes tecidos e também é fundamental para a preservação da massa muscular durante o emagrecimento.
Isso é particularmente relevante porque a perda de peso induzida pelos GLP-1 não ocorre exclusivamente às custas de gordura: pode haver também redução de massa magra. Revisões recentes sobre terapia com GLP-1 destacam justamente a necessidade de estratégias nutricionais voltadas à ingestão proteica e à preservação da massa muscular.
Na prática, significa distribuir fontes adequadas de proteína ao longo do dia, de acordo com as necessidades individuais. Carnes, peixes, ovos e laticínios podem ser utilizados, assim como proteínas vegetais provenientes de feijões, lentilhas, grão-de-bico, soja, tofu e outras fontes.
Vitaminas e minerais também importam
A saúde da pele e dos cabelos depende de uma alimentação nutricionalmente adequada.
Entre os nutrientes que podem merecer atenção durante períodos de grande restrição alimentar estão ferro, zinco, cobre, vitamina C, vitaminas do complexo B e outros micronutrientes, dependendo da alimentação, dos sintomas, das condições clínicas e dos exames de cada paciente.
Um consenso conjunto publicado em 2026 destaca como nutrientes de preocupação durante a terapia com GLP-1 ferro, cálcio, magnésio, zinco e vitaminas A, D, E, K, B1, B12 e C. Sinais de inadequação nutricional podem incluir, entre outros, queda excessiva de cabelo, alterações da pele, fraqueza e dificuldade de cicatrização.
Isso não significa que todos os pacientes precisem tomar suplementos.
Suplementação deve ser individualizada e orientada a partir da avaliação clínica, alimentar e, quando indicado, laboratorial.
GLP-1 e queda de cabelo: existe relação?
A alopecia também passou a ser investigada.
Já existem estudos observacionais e análises de farmacovigilância relatando associação entre agonistas de GLP-1 e queda de cabelo.
Entretanto, é difícil separar um possível efeito farmacológico direto das consequências do próprio emagrecimento.
Perda rápida de peso, redução importante da ingestão energética e inadequação de proteínas e micronutrientes são fatores conhecidos capazes de favorecer eflúvio telógeno, uma forma de queda difusa de cabelo. Por isso, diante de queda importante, é necessário avaliar o contexto clínico e nutricional em vez de simplesmente atribuir o problema à “caneta”.
Os análogos do GLP-1 também podem ter efeitos positivos sobre a pele
A relação entre GLP-1 e pele é mais complexa do que a expressão “Ozempic face” faz parecer.
Estudos recentes investigam possíveis ações anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras dos agonistas do receptor de GLP-1. Há sinais preliminares de benefícios em doenças inflamatórias da pele, como psoríase e hidradenite supurativa, além de pesquisas sobre cicatrização. Entretanto, grande parte dessas evidências ainda deriva de estudos pequenos, observacionais ou relatos clínicos, e não permite considerar os GLP-1 como tratamentos dermatológicos estabelecidos para essas condições.
Portanto, existe um aparente paradoxo: enquanto a perda rápida de gordura pode piorar volume e sustentação facial, os efeitos metabólicos e anti-inflamatórios da terapia podem exercer ações potencialmente favoráveis em outros aspectos da saúde cutânea.
Como cuidar da pele durante o tratamento com GLP-1?
Alguns princípios são particularmente importantes:
Evitar emagrecimento excessivamente rápido quando clinicamente possível.
Garantir ingestão adequada de proteínas.
Manter alimentação variada e rica em alimentos minimamente processados.
Garantir fontes alimentares de vitamina C e outros micronutrientes importantes.
Avaliar ferro, vitamina B12, zinco, cobre e outros nutrientes quando houver indicação clínica.
Manter hidratação adequada.
Realizar exercícios de força regularmente.
Evitar restrições calóricas extremas.
Acompanhar peso e composição corporal, e não somente o IMC.
Manter acompanhamento multiprofissional, envolvendo médico, nutricionista e, quando necessário, dermatologista.
A literatura mais recente reforça a importância de combinar o tratamento farmacológico da obesidade com otimização nutricional, hidratação, preservação da massa muscular e acompanhamento dermatológico quando necessário.
O objetivo não é apenas emagrecer
Os análogos do GLP-1 representam um grande avanço no tratamento da obesidade. Mas quanto mais eficaz se torna a terapia farmacológica, mais importante se torna acompanhar como esse peso está sendo perdido.
Uma perda expressiva de peso pode modificar a gordura facial, a sustentação dos tecidos, a massa muscular e a ingestão alimentar. Por isso, o acompanhamento nutricional não deve ser visto apenas como uma estratégia complementar para aumentar o emagrecimento.
Ele também tem o objetivo de preservar massa muscular, prevenir inadequações nutricionais e contribuir para a saúde da pele e dos cabelos durante todo o tratamento.
Em outras palavras, o objetivo não deve ser simplesmente atingir o menor peso possível.
O objetivo é emagrecer preservando saúde, força, funcionalidade e qualidade dos tecidos.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individualizada.



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