Canetas emagrecedoras e queda de cabelo: qual é o papel da nutrição?
- Dra.Andrea Pereira

- há 12 horas
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A queda de cabelo tem sido cada vez mais relatada por pessoas que utilizam medicamentos para o tratamento da obesidade, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1 e medicamentos relacionados, como semaglutida e tirzepatida.
Mas será que essas medicações realmente fazem o cabelo cair?
Dois estudos publicados em 2025 ajudam a compreender melhor essa questão. Os resultados sugerem que existe uma associação entre o uso desses medicamentos e alguns tipos de alopecia, mas ainda não permitem afirmar que as canetas emagrecedoras sejam diretamente responsáveis pela queda de cabelo.
A explicação provavelmente é mais complexa e envolve fatores como perda rápida de peso, redução da ingestão alimentar, alterações metabólicas e possíveis deficiências nutricionais.

O que os estudos encontraram?
Um dos trabalhos analisou dados de quase 394 mil indivíduos, dos quais mais de 20 mil haviam utilizado algum agonista do receptor de GLP-1.
Considerando a classe como um todo, o uso de GLP-1 esteve associado a uma chance 18% maior de diagnóstico de qualquer tipo de alopecia e a uma chance 80% maior de diagnóstico de alopecia androgenética.
Por outro lado, não foi demonstrado aumento estatisticamente significativo de alopecia areata ou eflúvio telógeno quando todos os medicamentos foram analisados conjuntamente.
Quando cada medicamento foi avaliado separadamente, os resultados também foram diferentes. Semaglutida apresentou associação significativa com alopecia androgenética, enquanto a tirzepatida não apresentou aumento significativo de nenhum dos tipos de alopecia avaliados nesse estudo.
Portanto, os dados não indicam um efeito uniforme de toda a classe.
E o que acontece com o cabelo durante uma perda rápida de peso?
Uma das principais hipóteses levantadas pelos pesquisadores é o eflúvio telógeno.
O cabelo apresenta um ciclo natural composto por diferentes fases. Em determinadas situações de estresse fisiológico, um número maior de folículos pode abandonar prematuramente a fase de crescimento e entrar na fase de repouso.
Algum tempo depois, esses fios começam a cair.
O eflúvio telógeno já é conhecido após situações como doenças sistêmicas, cirurgias, dietas muito restritivas e perda importante de peso.
A revisão científica enviada destaca justamente que a perda rápida de peso provocada pelo tratamento pode representar um estresse metabólico agudo capaz de desencadear eflúvio telógeno.
Onde entra a nutrição?
Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes para quem utiliza medicamentos para tratamento da obesidade.
Os agonistas de GLP-1 podem produzir grande redução do apetite. Se o paciente passa a comer muito menos, sem planejamento nutricional adequado, a quantidade total de energia e nutrientes consumidos também pode diminuir.
Os pesquisadores consideram as deficiências nutricionais como uma das possíveis explicações para a associação entre tratamento com GLP-1 e alopecia, juntamente com perda de peso e alterações hormonais.
Isso é particularmente relevante porque o folículo piloso apresenta intensa atividade metabólica. A formação e manutenção dos cabelos dependem de disponibilidade adequada de energia, proteínas e micronutrientes.
Na prática clínica, diante de uma queda de cabelo durante o emagrecimento, é importante avaliar a qualidade da alimentação e investigar, quando houver indicação, possíveis deficiências nutricionais.
Entretanto, é fundamental destacar: isso não significa que todo paciente utilizando GLP-1 precise tomar suplementos para evitar queda de cabelo.
Suplementação deve ser individualizada e orientada pela avaliação clínica e nutricional.
Nem toda queda de cabelo é igual
Outro achado interessante dos estudos é que não devemos colocar todas as formas de alopecia no mesmo grupo.
Na revisão de 2025, apenas um dos estudos incluídos caracterizou detalhadamente os tipos de alopecia. Os padrões mais frequentemente encontrados foram alopecia androgenética e eflúvio telógeno.
A alopecia androgenética é diferente do eflúvio telógeno. Ela está relacionada a uma predisposição individual e à miniaturização progressiva dos folículos.
É possível que as alterações metabólicas e hormonais decorrentes de uma perda importante de peso tornem uma alopecia androgenética previamente existente mais evidente.
Já o eflúvio telógeno costuma apresentar uma queda mais difusa e está associado a algum fator desencadeante.
Por isso, identificar qual tipo de queda está acontecendo é essencial antes de definir o tratamento.
E a alopecia areata?
A alopecia areata é uma doença de natureza imunomediada e geralmente produz áreas bem delimitadas de perda dos cabelos.
No grande estudo retrospectivo, o uso de agonistas de GLP-1 não esteve associado a aumento significativo da chance de alopecia areata.
Os autores levantam inclusive a hipótese de que as propriedades anti-inflamatórias dos agonistas de GLP-1 possam contribuir para esse resultado, embora isso ainda precise ser mais bem estudado.
Então as canetas emagrecedoras causam queda de cabelo?
Ainda não podemos fazer essa afirmação.
Os estudos demonstram um sinal de associação, mas associação não é sinônimo de causalidade.
A revisão científica ressalta que grande parte dos estudos observacionais apresenta limitações importantes. Muitos casos sequer tiveram avaliação dermatológica detalhada, tricoscopia ou caracterização adequada do tipo de alopecia.
Além disso, ainda faltam informações consistentes sobre quando a queda começa, sua relação com a dose, quantidade de peso perdido e o que acontece depois da suspensão ou manutenção do medicamento.
Assim, atualmente podemos pensar em um modelo multifatorial:
Uso do medicamento → redução do apetite → menor ingestão alimentar + perda rápida de peso → estresse metabólico e possíveis inadequações nutricionais → alteração do ciclo do folículo → queda de cabelo.
Ao mesmo tempo, não está descartada a possibilidade de outros mecanismos relacionados aos próprios medicamentos.
O que fazer se o cabelo começar a cair?
O primeiro passo não deve ser simplesmente suspender a medicação ou começar a tomar vitaminas por conta própria.
É necessário investigar.
A avaliação deve considerar a velocidade da perda de peso, quantidade e qualidade da alimentação, ingestão proteica, presença de náuseas, vômitos ou outros sintomas que possam comprometer a alimentação, além de doenças e medicamentos capazes de provocar queda de cabelo.
Quando houver suspeita clínica, também pode ser necessária a investigação de deficiências nutricionais.
Se a queda persistir ou houver suspeita de alopecia androgenética, alopecia areata ou outra doença do couro cabeludo, a avaliação dermatológica é importante.
A mensagem mais importante
O tratamento da obesidade não deve ser avaliado apenas pelo número de quilos perdidos.
A qualidade do emagrecimento também importa.
Uma perda de peso muito rápida, acompanhada de ingestão alimentar insuficiente, pode trazer consequências que vão além do cabelo, incluindo perda de massa muscular e inadequações nutricionais.
Por isso, o acompanhamento do paciente que utiliza medicamentos para obesidade deve incluir atenção à alimentação, ingestão de proteínas, estado nutricional, composição corporal e velocidade da perda de peso.
A queda de cabelo pode ser um sinal de que esse processo precisa ser reavaliado.
O objetivo não é simplesmente emagrecer.
É emagrecer preservando saúde, massa muscular e adequado estado nutricional.
Referências científicas
Ching LM, Guirguis CA, Tung JK. Associação entre agonistas do receptor de GLP-1 e alopecia: análise retrospectiva multicêntrica e tendências de interesse público. (Associations Between GLP-1 Receptor Agonists and Alopecia: A Multi-Centre Retrospective Analysis and Public Interest Trends). JEADV Clinical Practice, 2025.
Rojas Lopez RF, Lynett Barrera D, Amaya Muñoz MC, Saavedra Diaz MP. Alopecia como possível efeito adverso emergente associado aos agonistas do receptor de GLP-1 utilizados para perda de peso: revisão de escopo. (Alopecia as an Emerging Adverse Effect Associated With Glucagon-Like Peptide-1 (GLP-1) Receptor Agonists for Weight Loss: A Scoping Review). Cureus, 2025;17(8):e90021.



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