Canetas emagrecedoras causam perda de massa muscular?
- Dra.Andrea Pereira

- há 20 horas
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Os análogos do GLP-1, como a semaglutida, e os medicamentos que atuam simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1, como a tirzepatida, transformaram o tratamento da obesidade. Além de promoverem uma perda de peso expressiva, esses medicamentos podem melhorar diversos parâmetros metabólicos.
Com resultados tão significativos, porém, surgiu uma nova preocupação: quanto do peso perdido corresponde à gordura e quanto corresponde à massa muscular?
A resposta é mais complexa do que simplesmente olhar o número na balança.

Perder peso não significa perder apenas gordura
Durante praticamente qualquer processo de emagrecimento significativo, o organismo não perde exclusivamente tecido adiposo. Também pode ocorrer redução de componentes da chamada massa magra.
Esse fenômeno não é exclusivo das canetas emagrecedoras. Pode acontecer durante dietas hipocalóricas, após cirurgia bariátrica e em outras intervenções capazes de produzir grande perda de peso.
O ponto importante é entender que massa magra não é sinônimo de massa muscular.
A massa magra medida por métodos como a DXA inclui músculos, mas também água corporal, órgãos, tecido conjuntivo, glicogênio e outros componentes livres de gordura. Portanto, uma redução da massa magra em um exame de composição corporal não significa automaticamente perda equivalente de músculo esquelético ou desenvolvimento de sarcopenia. Essa distinção é enfatizada nos trabalhos que discutem a interpretação das alterações corporais durante o tratamento com GLP-1.
O que os estudos mostram?
Os estudos com semaglutida e tirzepatida confirmam que parte do peso perdido pode corresponder à massa magra, mas os resultados variam consideravelmente.
No subestudo de composição corporal do STEP-1, com semaglutida 2,4 mg, houve redução importante do peso e também da massa magra. Entretanto, a proporção de massa magra em relação ao peso corporal aumentou, porque a redução da gordura foi ainda maior.
No SURMOUNT-1, com tirzepatida, aproximadamente 25% da redução de peso foi atribuída à massa magra, enquanto a maior parcela correspondeu à gordura.
Outros estudos encontraram proporções diferentes, mostrando uma grande heterogeneidade. Isso pode estar relacionado ao medicamento utilizado, magnitude e velocidade do emagrecimento, características do paciente, presença de diabetes, método empregado para medir composição corporal, alimentação e nível de atividade física.
Uma meta-análise mais recente de ensaios randomizados também encontrou redução absoluta de massa magra com os agonistas de GLP-1, ao mesmo tempo em que a proporção de massa magra no peso corporal melhorou.
Portanto, a mensagem científica não deve ser simplesmente "GLP-1 destrói músculos".
A evidência disponível aponta para uma interpretação mais cuidadosa: esses medicamentos produzem grande redução de gordura corporal e podem ser acompanhados por alguma redução de massa magra, mas a magnitude da perda especificamente de músculo esquelético e, principalmente, suas consequências sobre força e função ainda precisam ser melhor definidas.
Massa muscular não é apenas quantidade
Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes da discussão.
Quando falamos em saúde muscular, não devemos avaliar apenas quantos quilos de músculo uma pessoa possui. Também precisamos considerar qualidade muscular, força e capacidade funcional.
No estudo SURPASS-3 MRI, por exemplo, a redução do volume muscular com tirzepatida foi proporcional ao emagrecimento, enquanto houve preservação do volume muscular livre de gordura e melhora de parâmetros relacionados à qualidade muscular, incluindo menor infiltração de gordura.
Além disso, os estudos disponíveis não demonstram de maneira consistente que a redução de massa magra observada com esses medicamentos seja acompanhada por deterioração clinicamente relevante da função muscular.
Esse ponto é fundamental porque perda de massa magra, perda de músculo e sarcopenia são conceitos diferentes.
Quem merece atenção especial?
A preservação muscular torna-se particularmente relevante em pessoas que já apresentam pouca reserva muscular antes do tratamento.
Idosos, indivíduos frágeis, pessoas sedentárias e pacientes com baixa massa muscular prévia podem ser mais vulneráveis aos efeitos de uma perda de peso rápida e expressiva. Os artigos também destacam idade, inatividade física e menor reserva muscular como fatores que podem modificar a resposta ao tratamento.
Nesses pacientes, simplesmente acompanhar o peso pode ser insuficiente.
Como preservar os músculos durante o tratamento?
O objetivo moderno do tratamento da obesidade não deveria ser apenas perder mais peso, mas melhorar a qualidade da perda de peso.
Entre as principais estratégias discutidas na literatura estão exercício resistido, alimentação adequada e ingestão suficiente de proteínas. A combinação do treinamento resistido com intervenções para perda de peso pode contribuir para preservar massa magra enquanto ocorre redução do tecido adiposo.
Por isso, o tratamento farmacológico da obesidade deve fazer parte de uma abordagem mais ampla, que considere alimentação, atividade física e acompanhamento clínico individualizado.
Como acompanhar a composição corporal?
A balança mostra quanto o paciente pesa, mas não mostra o que está acontecendo dentro desse peso.
Dependendo da indicação clínica, a composição corporal pode ser acompanhada por métodos como:
bioimpedância elétrica (BIA);
absorciometria por dupla emissão de raios X (DXA);
ultrassonografia muscular;
tomografia computadorizada ou ressonância magnética em situações específicas.
Além da quantidade de músculo, em pacientes selecionados também pode ser importante acompanhar força e função muscular.
Isso é especialmente relevante porque os próprios estudos clínicos com agonistas de GLP-1 ainda apresentam limitações: apenas uma parcela dos participantes costuma realizar avaliação detalhada da composição corporal, e medidas de força, mobilidade e função muscular nem sempre são incluídas.
Então devemos ter medo de usar GLP-1 por causa dos músculos?
Não. A possível redução de massa magra não deve apagar os benefícios clínicos que uma perda de peso adequada pode proporcionar às pessoas com obesidade. Uma revisão sistemática recente concluiu que a perda de massa magra não deve, isoladamente, ser considerada uma limitação ao uso desses medicamentos, embora estratégias nutricionais e de exercício devam acompanhar o tratamento.
O que as evidências estão mostrando é a necessidade de mudar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas:
"Quantos quilos o paciente perdeu?" devemos perguntar:
"O que ele perdeu, o que conseguiu preservar e como ficaram sua força e sua função?"
A mensagem final
Emagrecer não é apenas diminuir o número na balança.
O objetivo do tratamento da obesidade deve ser promover uma redução predominante da gordura corporal, ao mesmo tempo em que buscamos preservar massa muscular, força, funcionalidade e saúde metabólica.
As novas terapias com GLP-1 representam um grande avanço no tratamento da obesidade. O próximo desafio é fazer com que a perda de peso seja não apenas maior, mas também melhor.
Menos gordura. Mais saúde. Preservando músculo e função.



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