• Dra. Andrea Pereira

A Importância Das Fibras Na Síndrome Metabólica

O uso de probióticos, prebióticos e/ou transplantes fecais com finalidade de manipular a microbiota para melhorar a saúde, apresentam grande potencialidade e têm sido cada vez mais usados e estudados.

Introdução:

O trato gastrointestinal humano é composto por uma comunidade microbiana complexa, conhecida como microbiota, com papel central na saúde e impacto no metabolismo, na fisiologia, na nutrição e no sistema imunológico.1,2

Nela temos mais genes do que no genoma humano, aproximadamente 1000 espécies de bactérias, 10 trilhões de microrganismos, predominantes no intestino grosso. Contribuindo para a degradação, fermentação e absorção de nutrientes complexos, como mucinas intestinais, carboidratos e fibras e, para formação do bolo fecal.1–5 Esses nutrientes são transformados em açúcares simples, ácidos graxos de cadeia curta e outros nutrientes mais facilmente absorvidos.4

Além disso, a microbiota participa da produção de vitamina K, B12 e ácido fólico, contribui para o metabolismo da bile e, transforma potenciais agentes carcinogênicos, como aminas heterocíclicas e componentes bioativos, incluindo fitoestrógenos.4

Nos adultos os gêneros predominantes são Bifidobacterium, Lactobacillus, Bacteroides, Clostridium, Escherichia, Streptococcus e Ruminococcus, contudo 60% são do filo Bacteroidetes ou Firmicutes.3,6

Apesar da diversidade da microbiota podemos caracterizá-la em 3 variantes ou enterotipos baseados nos gêneros dominantes: Bacterioides, Prevotella e Rumiococcus.2 Esses enterotipos podem ser influenciados pelos hábitos dietéticos, da seguinte forma: dietas ricas em gordura animal predomina no Bacterioides e as ricas em carboidrato associa-se a Prevotella.2

Alguns estudos mostram uma relação da microbiota com o desenvolvimento do fenótipo da obesidade, ocorrendo um aumento dos Firmicutes e uma redução proporcional das Bacteroidetes nos obesos.6,7 A perda de peso em obesos (Índice de Massa Corpórea (IMC)>30) associa-se a uma inversão dessa relação de Firmicutes e Bacteroidetes.6

A formação da nossa microbiota começa na fase uterina, porém a maior colonização do trato gastrointestinal ocorre ao nascimento, influenciado pelo tipo de parto. Os bebês provenientes de parto normal apresentam uma microbiota associada a um melhor sistema imunológico quando comparado aos de cesárea.2

Da infância ao idoso temos variações na nossa microbiota, influenciadas por dieta, uso de antibióticos, doenças crônicas e pela própria idade, entre outros.2

O desequilíbrio da microbiota gastrointestinal, conhecida como disbiose, pode ser significante na obesidade, desnutrição, diabetes, retocolite ulcerativa e doença de Chron, entre outras doenças.1,7

Além disso, há uma associação com doenças cardiovasculares e síndrome metabólica, uma vez que na dislipidemia relaciona-se com níveis séricos de colesterol, no diabetes com absorção de carboidratos e nível glicêmico e, favorece a obesidade.4

O uso de probióticos, prebióticos e/ou transplantes fecais com finalidade de manipular a microbiota para melhorar a saúde, apresentam grande potencialidade e têm sido cada vez mais usados e estudados.7

Estudos mostram que os hábitos alimentares têm importante papel na constituição e equilíbrio da microbiota, e sua mudança pode alterá-la em 24h, como por exemplo, trocar uma dieta hiperlipídica com pouco teor de fibras por uma hipolipídica com alta concentração de fibras.2 Além disso, o consumo de uma dieta hiperlídica aumenta a concentração sérica de endotoxinas, derivadas da parede de bactérias Gram-negativas, devido aumento da permeabilidade pela modificação da mucosa.5 Essa endotoxemia contribui para a resistência à insulina.5

O papel das fibras na microbiota

A dieta rica em fibras e vegetais inibe alterações da microbiota que levam a produção de substâncias cancerígenas e inflamatórias, como amônia, fenóis, p-cresol, aminas, etc. E, afetam a absorção e degradação dos carboidratos. Por isso, as fibras acabam atuando na redução da inflamação, níveis glicêmicos e na prevenção ao câncer.6

O objetivo das estratégias dietéticas, baseadas nos 3 “P”, probióticos, prebióticos e polifenóis, tem por objetivo modular e equilibrar a atividade metabólica e imunológica da microbiota.6

Destacando os prebióticos, que são substâncias seletivamente fermentadas, levando a mudanças na composição e/ou atividade da microbiata.7 Os prebióticos, como a inulina, conduzem ao aumento de bactérias benéficas como as bifidobactérias e produtoras de butirato, modulando e equilibrando a microbiota.6

Fibras: definições e classificações

As fibras são partes comestíveis de plantas ou análogos de carboidratos, resistentes a digestão e absorção do intestino delgado e, com fermentação completa ou parcial no intestino grosso.8 Incluem várias classes químicas: polissacárides não amiláceos (celulose, hemicelulose, β-glucanos, inulina, gomas naturais e pectina), oligossacárides, lignina, derivados de ácidos graxos, outras substâncias vegetais (mucilagem, fitatos) e análogos de polissacárides.8

Além disso, podemos classificá-las como solúveis (pectinas, gomas e mucilagem) e insolúveis (celulose, hemicelulose, lignina). As fibras solúveis tem maior relação com metabolismo lipídico e glicêmico, prevenção de doença cardiovascular, diferenciação da mucosa ou apoptose e, função de barreira mucosa, devido aumento da viscosidade do conteúdo luminal e da produção de ácidos graxos de cadeia curta.8

As insolúveis, com baixa capacidade de fermentação, atuam mais no bolo fecal, com propriedades de melhora da constipação e da consistência das fezes.8

Recomendação diária das fibras

A recomendação média diária de fibras é de 14g de fibra/1000 kcal, baseando-se em um consumo de 2000kcal/dia para mulheres e 2600kcal/dia para homens, respectivamente, seria 28g de fibra/dia e 36g/dia.9

Para os pacientes diabéticos, a Associação Americana de Diabetes recomenda um consumo de fibra solúvel de 20 a 35 g/dia devido os seus efeitos na redução de colesterol, melhora do controle glicêmico e redução da excreção urinária de glicose. Porém, essa recomendação é muito difícil de atingir apenas na dieta oral, por isso, acabam sugerindo o uso de fibras suplementares.10

Já Associação Dietética Americana recomenda 30-50 g/dia para pacientes diabéticos tipo 2.11

O papel das fibras na obesidade

A obesidade é uma doença crônica, de grande prevalência mundial, associada a várias co-morbidades, como doença cardiovascular, diabetes, hipertensão e dislipidemia.12 Crescendo exponencialmente em todos grupos etários é um dos maiores desafios na saúde pública do século 21.12

As fibras alimentares contribuem na perda de peso por aumento da sensação de saciedade, devido a mudança da viscosidade, formação de gel e de volume do conteúdo gástrico; modulação da função motora gástrica; embotamento da resposta pós-prandial da glicose e insulina; aumento da duração da refeição com maior tempo de mastigação, ativando a saciedade central e periférica; menor consumo calórico por afetar a palatabilidade.8

Além disso, alto consumo de fibras reduz em 30% o risco do ganho de peso ou desenvolvimento de obesidade.9

A ação das fibras na redução dos níveis glicêmicos

O diabetes mellitus é uma doença crescente no mundo todo, aumentado a mortalidade por doença cardiovascular em 2 a 3 vezes mais.9,11

Estudos mostram a atuação das fibras na redução dos níveis glicêmicos e da hemoglobina glicada, e aumento da sensibilidade a insulina nos diabéticos.8,11,13,14 Isso deve-se a redução do esvaziamento gástrico; modificação da atividade mioelétrica gastrointestinal; atraso do trânsito intestinal; redução da difusão de glicose; acessibilidade reduzida da α-amilase aos substratos pelo aumento da viscosidade do conteúdo do trato gastrointestinal.8,13,14

Somado a isso, altos níveis de consumo de fibras estão associados com significante redução no diabetes tipo 2.9,14

A importância das fibras na dislipidemia e hipertensão

Estudos tem mostrado que o consumo diário de fibra solúvel pode reduzir colesterol e triglicérides, porém ainda não demonstraram ação nos níveis séricos de HDL.8,15 Além disso, as fibras induzem a redução do índice glicêmico da alimentação, com efeitos benéficos na dislipidemia.8,15

A ação das fibras na dislipidemia associa-se a aumento da saciedade, inibição da lipogênese hepática e nas incretinas, entre outros.15

As mudanças no estilo de vida com perda de peso, aumento do consumo de fibras e prática regular de exercícios físicos estão relacionadas a redução dos triglicérides e aumento do HDL.16

O aumento do consumo das fibras parece ser uma boa estratégia no controle pressórico e na prevenção da hipertensão. Isso pode ser explicado pela perda de peso, melhora da hiperinsulinemia e da resistência insulínica.8

Conclusão:

A síndrome metabólica caracterizada por obesidade, baixos níveis séricos de HDL, hipertrigliceridemia, hipertensão, hiperglicemia e resistência a insulina apresenta um grande impacto no risco cardiovascular.15

A atuação das fibras na obesidade, hipertensão,